

SE...
Se eu fosse um ser comum,
Estaria ao lado do real.
Mas, a amplitude do imaginário,
Atrai-me, tem um encanto
Como nada existe igual.
O velho real é conhecido
E oferece menos perigo
Mas eu – ser incomum,
Para sentir-me bem,
Preciso ir mais além.
Ver o que vemos, é simples.
Trabalhar com o que temos, é fácil!
Já, enxergar o que muitos não vêem,
Ter sentimentos profundos, sem saber identificar,
Ver os cinzeiros além das cinzas,
Isso sim, faz parte do “imaginar ”.
O que vemos é simplesmente o que vemos
E o que não se pode enxergar?
Labirinto eterno, castelo quase inatingível,
Mágico, talvez algo que eu possa vasculhar,
Descobrir, entender e até alcançar.
Minhas próprias teorias poderiam ficar
Registradas, em algum lugar...

ENTE
O sol decide se fazer ausente,
A névoa fina surge de repente,
Traz com ela um estranho presente,
Uma sensação cruel, um estado doente.
Lindo astro que ilumina a gente,
Devia esquecer que tem um poente,
Não me sentiria tão só, tão carente,
Quando a escuridão se apossasse da mente
Por mais que o coração tente,
Por mais que o cérebro invente,
Nada é encontrado que compense
A dor – a falta de amor de qualquer ente...

CAMBALEIA!
Cambaleia, escrava!
Forte é a tua raça.
Devaneia, serva!
Tens na alma boa erva.
Quando visitas o porto de areia,
Não fiques à mercê da fraqueza.
Finque os pés, só cambaleia.
Cambaleia, guerreira!
Faz terra da tua areia,
Tire da batalha a leveza,
Junte toda a tua seiva.
Amanhã, recomeça a guerra.
Tão comum na tua era!
Força, minha Deusa...
Cambaleia, mas não te entrega!

PRO...LOGANDO
Dizem os entendidos,
Que “dizer o que se sente”
Ainda não é fazer poesia.
Definitivamente, não sou poeta,
Pois digo e escrevo exatamente o que sinto,
Assim como Roberto Carlos,
Que gosta de cantar somente o que sente.
Por vezes, releio o que escrevo.
E encontro um ser contraditório.
Como leitora, vejo incoerências.
Como posso sentir hoje de um modo
E amanhã de outro?
Quem sente, sabe o que sente!
Quem é, é!
Porém, para tudo há explicação.
Essa ambigüidade não é falsidade,
Não é hipocrisia, nem mentira barata.
É apenas o real.
O real estado de qualquer pessoa real.
E o real, às vezes, é confuso.
E assim sou hoje,
Amanhã posso ser “assado”.
Hoje penso de uma maneira,
Amanhã posso pensar de outra.
Mas, o que escrevo é puro e verdadeiro.
E nada mais do que sinto.

AS AMORAS DA MINHA INFÂNCIA
Ao amanhecer, ao entardecer,
Nos galhos, nas folhas, na terra,
Com chuva, com frio ou calor,
Lá estavam elas, sempre a esperar.
Eram verdes, mescladas ou vermelhas,
Com pelos, lisas, retas ou tortas,
Miúdas, médias, grandes e gordas
E as duras, sem gosto, tiradas antes da hora.
Docinhas, no ponto, eram as roxas
Que gostavam de sujar as roupas,
De todos os dedinhos também tingir,
E a boca, como uma maquilagem, colorir.
Com ou sem cabinhos,
Sem ou com bichinhos,
Esperavam sempre pelos dedinhos
Das frágeis mãos de uma criança,
Que adorava brincar na balança...

A TUA ATMOSFERA
A tua atmosfera
Tem o ar das praias sombreadas
Nas manhãs abundantes de calor
A tua atmosfera
É a encarnação da primavera
Com canteiros de flores
Cercados de borboletas
A tua atmosfera
Tem o clima dos coloridos verões,
Com vozes de crianças
À beira das calçadas
A tua atmosfera
Lembra a rede, embalando o sono
Nas sombras das varandas,
Nas vilas de interior
A tua atmosfera é a minha inspiração,
É o ar que embriaga a minha alma distraída,
E perfuma o meu corpo no soprar da brisa.

AMO-TE ASSIM
Às vezes penso,
Que não deveria ter amar
Assim, tão docemente.
Às vezes penso,
Que não deveria te amar
Assim, confusamente.
E te confesso, muitas vezes,
Não perdôo a mim mesma
Por te amar assim,
Perdidamente...

QUEM SOU EU?
Sou aquela que cruzou as intempéries do passado
Que caminha livre pelo agreste do presente,
Buscando no horizonte indecifrável do futuro
Razões para crer em um amor sempre ausente.
Eu sou aquela que amou, sem ser amada
Que teve amigos, sem nunca ter amizade,
Teve sonhos, sem sequer ter adormecido.
Não foi presa, mas nunca teve liberdade.
Gosto de ouvir a chuva bater no telhado
O tic-tac do relógio à cabeceira,
Adoro sentir o cheiro do mato molhado,
De me deitar ao sol sobre uma esteira.
Esta é a história abstrata de uma vida
Que neste mundo por passar, passou.
Como posso acreditar que existo
Se nem mesmo sei quem sou?

EMOÇÃO
Por entender que o amor
É a essência da vida;
Por entender que a paz
É a dádiva maior a ser colhida;
Por entender que o sorriso
É a luz que ilumina os corações; e
Por entender que a paixão
É a fonte de todas as emoções,
Deixei-me levar,
Sem saber para onde ia,
Porque sem querer,
Era isto que eu queria.

RECADO
Sinto que algo se esvai...
Será a paixão embevecida?
Será a carência fenecida?
Será o suposto amor?
Ou será algo que nem começou?
Sinto que algo se esvai...
Sinto medo,
Sinto frio,
Sinto vazio.
Mas quando de todo se for
A ti só empregarei ternura
E transmitirei com brandura
Só “coisas” do coração
E no imenso mundo abstrato,
Mentalmente farei teu retrato
Que permanecerá imóvel,
Enternecedor, estático,
Emoldurado de amor
E te serei eternamente grata
Na partida,
Por ter me feito sentir,
Entre tanta gente,
A pessoa mais querida,
Por ter enchido de cor
O meu mundo
E completado de alegria
A minha vida...
DOR DE VIVER
O nome não é muito conhecido,
Nem muito mesmo é coisa rara.
É dor generalizada, sem sintoma agressivo,
Mas, acredite, dói, corrói e cala.
Muitos, talvez nunca a tenham sentido,
Outros, porém, a sentem a cada respirar.
Há ainda quem sinta doer, sem saber o que,
E por não saber, ela se espaira no ar.
Surgem as crises, mas não é doença incurável.
Se a dor for amena, olhe para a natureza,
Aprofunde seu olhar nas obras do Criador.
Um lume de sol aparecerá, com certeza.
Se for aguda, minha amiga, não esmoreça.
Faz parte de um místico saber
Que não nos compete decifrar.
Tenha paciência e sinta doer “a dor de viver”.
Mas não se entristeça, após longos e sofridos momentos,
As dores vão se dissipando em meio à felicidade.
Darão lugar não apenas a um lume de luz, mas sim
A todo o Universo, e quem sabe à ETERNIDADE.

PAUSA
É, meu amigo...
Falar de amor fica difícil,
Pois no amor nada há de concreto,
São apenas conjecturas, dizem.
Pois é, as coisas dos homens são assim.
Superficiais, passageiras, vazias,
Como lhes são as próprias vidas.
É, meu amigo,
Como dizia Fernando Pessoa
“As coisas andam fora do lugar”.
A mediocridade impera,
A virtude se esvai,
A apreensão nos rodeia,
O orgulho predomina,
O egoísmo está presente,
E o principal que é o amor
Vai morrendo l e n t a me n t e...

INTERROGAÇÃO
Já adulta, brinquei de casinha,
por duas vezes.
Fui mamãezinha,
fiz comidinha, lavei roupinhas,
deixei tudo bonitinho
para quando papai chegasse.
Não deu certo. Acho que não nasci
para brincar de casinha.
Na infância, nunca me lembro
de tê-lo feito.
Brincava de professora,
de secretária, de cantora,
de cigana, de comerciante,
ora comprando, ora vendendo.
Fazia revólveres e pipas,
corria atrás de balões,
“batia bafo”, jogava “fubeca”,
no “gude”, era campeã.
Em minhas brincadeiras,
Fui cobradora de ônibus,
engraxate e bandida.
Cheguei a guia de expedição.
Fui dona de funerária,
servente de cemitério,
bruxa, carrasca, ladra,
e goleira de futebol também.
Mas, de casinha, engraçado...
Não me lembro de ter brincado.
Ou quis brincar e nunca encontrei o papai?
É, não me lembro, realmente.

DISPARO
Tenho pressa, muita pressa,
Cada dia é menos um dia,
E quero muito é viver.
Me dê licença, rápido!
Não quero perder nada,
Nada que gosto de fazer.
Quero andar, quero chorar,
Quero dançar, quero amar,
Quero acariciar, quero papear.
Quero ir, quero vir,
Quero dormir, quero sentir,
Quero produzir, quero rir.
Saia da frente, cuidado!
Estou a todo o vapor.
Não me atrapalhe, por favor,
Não me tire de onde estou.
Estou bem! Estou comigo.
Há muito não ficava assim,
Tenho vontade de tanta coisa.
Tornei-me cega, como não vi?
Meu coração está pulsando.
Ouça! Pode chegar mais perto,
Veja meus olhos brilhando.
Agora, pode ir embora.
Quero curtir este momento,
Quero curtir todos os momentos.
Estou acordada, não desnorteada.
Estou ansiosa, não desequilibrada.
Estou viva, não morta.
Viva! Vivaaaaaaaa!!!
NÃO OUÇO
Desencanto, desalento.
Desalento, corpo lento.
Corpo lento, não reage.
A tantas banalidades,
Às palavras com nulidade
Que a mim tentam contaminar.
Não adianta, sou peroba,
Casca dura, difícil quebrar.
Minha essência fica mais adentro
Impossível de se encontrar.
Usem o machado, usem a serra!
Os dois irão se quebrar
Na tentativa tão inútil
De à minha alma chegar.
Meu âmago é só meu!
Não há como a ele falar.
Além de tudo, é surdo.
Até ouve algumas coisas,
Mas sem nunca aceitar...

TEMPOS
Há tempos
Que abrigos,
Que apartamentos,
São alegres compartimentos
De cores
De vividos momentos.
Há tempos,
Que abrigos,
Que apartamentos,
São tristes compartimentos
De dores
De perdidos momentos.
Há tempos,
Que nem abrigos,
Nem apartamentos,
Comportam as almas,
Que entregues ao vento,
Perdem-se em pensamentos.
Há tempos,
Que nem vozes,
Nem ruídos,
Alcançam corações inibidos,
Que pulsam,
Mas estão feridos.
Tempos,
Em que lágrimas já não rolam,
Em que plantas não mais brotam.
Tempos,
Em que ventos já não sopram,
Em que vidas já não vivem.
Tempos,
Em que abrigos,
Apartamentos,
São meros compartimentos.

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Publicado em 23/05/2011